segunda-feira, junho 25, 2007

Um campo de treino


Suponha que existe um lugar para onde poderíamos ir para aprender a arte da paz, uma espécie de campo de treino para guerreiros espirituais. Em vez de gastar horas e horas a disciplinar-nos para derrotar o inimigo, poderíamos passar horas e horas a desfazer as causas da guerra.

Tal lugar poderia ser chamado de campo de treino do bodhisattva ou treino para os servidores da paz. A palavra bodhisattva tem a ver com aqueles que se comprometeram com o caminho da compaixão. Esse campo de treino poderia ser dirigido por Nelson Mandela, Madre Teresa ou Sua Santidade, o Dalai Lama. Mais provavelmente, seria dirigido por pessoas que nem mesmo conhecemos e de quem nunca ouvimos falar, apenas os homens e mulheres comuns de toda parte do mundo que dedicam sua vida a ajudar os outros a se livrarem da dor.

Os métodos ensinados no treino do bodhisattva poderiam incluir a prática de meditação e tonglen. Poderiam também incluir as seis paramitas - as seis actividades dos servidores da paz.

A palavra paramita significa "ir até à outra margem". Essas acções são como um barco que usamos para atravessar o rio do samsara. As paramitas são também chamadas acções transcendentes porque são baseadas em dar um passo para além das noções convencionais de virtude e não-virtude. Elas treinam-nos para irmos completamente para além das limitações da visão dualista e para desenvolvermos uma mente flexível.

Um dos principais desafios desse campo seria evitar tornar-se moralista. Com pessoas vindas de todos os países, haveria muitas opiniões conflituosas sobre o que é ou não é ético, sobre o que é ou não proveitoso e, provavelmente, logo precisaríamos pedir às pessoas mais sensatas e despertas do local que dessem um curso sobre flexibilidade e humor!

À sua própria maneira, Trungpa Rinpoche idealizou um curso assim para os seus alunos. Ele pedia para memorizarmos certos cantos e alguns meses depois de a maioria de nós ter conseguido aprender, mudava a letra. Ele nos ensinava determinados rituais e queria que praticássemos com muita precisão. Quando estávamos quase começando a criticar aqueles que erravam ao praticá-los, ele nos ensinava os rituais de forma totalmente diferente. Mandava imprimir lindos manuais com todos os procedimentos correctos mas, de modo geral, eles já estavam desactualizados antes mesmo de serem publicados. Após anos desse tipo de treino, começa-se a desistir de ter controle. Se as instruções de hoje são para colocarmos tudo do lado direito, fazemos isso tão impecavelmente quanto possível. Se amanhã as instruções são para colocar tudo do lado esquerdo, nós cumprimo-las com todo o coração. A ideia de que existe uma única maneira correcta como que se dissolve em névoa.

Pema Chodrön, Quando tudo se desfaz: instruções para tempos difíceis

1 comentário:

Farofia disse...

Muito aprendo neste seu blog!! Parabens!!
Um leitora assidua destes vossos posts..

Bjos
Farofia